sábado, 16 de outubro de 2010

Vida de Palhaço

Todo mundo já ouviu falar dos Doutores da Alegria, certo? Todo mundo já assistiu Patch Adams uma vez na vida, né? Um monte de gente travestido de palhaço travestido de médico, alguns palhaços profissionais, alguns simplesmente atores e outros que só estavam com vontade de emprestar seu tempo livre para tornar uns doentizinhos mais felizes. O esquema é que dois palhaços profissionais conseguiram se infiltrar na Faculdade de Medicina da UFG e abriram uma matéria que se chama Pronto Sorriso, com o objetivo de humanizar os futuros médicos mecanicistas, fazer eles enxergarem o paciente além de suas enfermidades e ver que há muito mais a se aprender na faculdade do que o nome de todos os ossos do corpo humano. Essa disciplina também é oferecida para alunos de outros cursos, apesar dos jovens bonitos e esforçados calouros de medicina terem privilégio na hora de pegar essa matéria. Ano passado, minha namorada (que ontem completamos 3 anos de namoro, yippie-ki-yay, motherfucker), fez essa disciplina e sempre contava de quão divertido era fazer e eu fui tentar essa ano também. O que eu quero chegar é que desde o começo do ano, toda quarta feira a noite eu compareço a faculdade de Medicina para testar meus limites como pessoa ridícula que sou.
A disciplina consiste basicamente em fazer você se constranger para que, banalizando esse sentimento de constrangimento, você consiga interagir com pessoas em situações horríveis com a frieza necessária para que você não se abale mas com a preocupação de que você está ali para tornar o ambiente mais leve. Tudo isso através de dinâmicas de grupo, testes de atenção, memória. Não sou muito bom em começar conversas, isso quer dizer que demorou muito para que eu realmente conseguisse me entrosar com as pessoas, sem contar que eu era um dos poucos ali que não estava em um grupo de amigos, mas uma coisa eu tinha do meu lado: sou ridículo. Sempre fui. E sempre fui bom em cumprir ordens também, assim eu acho que me dei muito bem até agora. Fazendo tudo o que eu era mandando, sem medo de ser ridículo, parecia tudo fácil pra mim até o momento.
Uma das coisas que tive que fazer era montar meu palhaço. Uma personalidade, um jeito de andar, falar, uma maquiagem. Outra coisa que tirei de letra. Montei logo um palhaço sarcástico e mal humorado chamado Dr. Halls (trocadilho infame mas que sempre rende algumas risadas quando a pessoa entende), personagem diariamente interpretado por mim, com ou sem maquiagem. Outro segredo em ser palhaço: o nariz me dá liberdade poética para ser escroto. Posso sacanear as pessoas das piores formas possíveis, verbal e fisicamente, que com o nariz, está tudo bem. É só um palhaço.
Agora vamos para a parte maneira da coisa: entrar nos hospitais. Como requerimento para que eu seja aprovado, eu tenho que fazer 20 visitas ao hospital durante o ano. Além de ser aprovado, eu ainda sempre tenho assunto com qualquer estranho, quando começo a contar que faço visitas de palhaço ao Hospital das Clínicas de Goiânia. Minha primeira entrada foi muito tensa. Nos mandaram para um lugar que não existia e fomos parar em um lugar pior ainda. As pessoas todas muito tristes, recém saídas de cirurgias, uma pior que a outra. Um sujeito sem nariz e uma senhora que devia pesar uns 30 kg no máximo e nós lá, vestidos de palhaço, sem a mínima idéia de como reagir àquilo tudo. Até que começamos a falar. Eu falei que tenho dificuldades pra puxar conversa? Com o nariz eu puxo conversa até com objetos inanimados. E puxando ou não conversa, eu sou o melhor pra continuar essas conversas. E foi isso, danei a falar sem parar com todo mundo que aparecia pela frente. As entradas seguintes foram bem mais tranquilas, o segredo era esse: converse. A maioria ali só quer pensar um pouco em outra coisa que não a doença, a perna quebrada ou o marido doente. É muito fácil levar um violão e uns fantoches, mas eu não tenho nenhum dos dois a meu favor.
Outra característica minha é que, enquanto a maioria adora visitar a pediatria por ser o lugar mais fácil de arrancar risadas, eu morro de medo de crianças. Meu humor é basicamente de situação, se eu não consigo conversar com alguém eu não consigo fazer piada nenhuma e crianças não conversam. Elas só querem você batendo a cabeça em algum lugar ou fazendo alguma piada com gases, eu não consigo. Sem contar aquelas crianças subdesenvolvidas que parecem bebês mas falam e se comportam como crianças de 10 anos, morro de medo, sério mesmo.
Estou adorando cursar essa matéria e se eu conseguir, quero continuar fazendo esse trabalho mesmo depois que cumprir minhas 20 entradas e passar de ano. Uma puta iniciativa dos professores Marcelo e Lua que tomara que dure muitos anos ainda. Sem contar que é muito compensador você ver aquele pessoal que tá em um leito totalmente desiludido da vida abrir um sorriso simplesmente por você entrar no quarto. A maior recompensa é essa mesmo, saber que você aliviou um pouco a barra de alguém. Espero que vocês consigam passar por isso uma vez na vida, eu passei e foi lindo.

ATUALIZAÇÃO:
Tão aí algumas fotos minhas como palhaço:

13 Comentários:

CarolMoreno disse...

Nossa, que legal!
Vi uma matéria sobre isso na TV a bastante tempo, achei lindo, deve ser muito bom conseguir fazer as pessoas sorrirem quando elas estão nas piores situações. To orgulhosa de voc, tio Toscano x)

Zé Abrão disse...

Guilherme Toscano garantindo vaga no Céu. Achei massa demais essa iniciativa, parabéns pra esses professores.

Carolina disse...

Uma vez fui a um asilo aqui na minha cidade com minha turma de escola. Inicialmente todos nós hesitamos um pouco, mas concordamos em ir. Quando chegamos lá, no entanto, passamos por uma maravilhosa experiência. Demos presentes a todos, conversávamos com os idosos (apesar de a situação lá ser meio triste), pintamos as unhas das senhoras e ver a alegria estampada no rosto deles não teve preço. Foi realmente muito bacana.

KitFisto21 disse...

massa demais!
mas acho que ninguém precisa se vestir de palhaço nem cursar nenhum curso, só o trabalho voluntário de ir visitar e conversar com os doentes tem o mesmo efeito, acho...

Fernanda K. disse...

KitFisto21: Pois é, mas não é tão simples entrar em um hospital, asilo ou clínica e conversar com os pacientes, tem toda uma burocraciazinha para comprovar que sua visita faz parte de um trabalho social e tal. Tem que marcar data, horário e seguir umas normas.
Gui Toscano: também sou péssima pra puxar assunto, sou tímida pra caramba, mas utilizar de uma personagem, colocar um nariz de palhaço, realmente transforma a gente. Parabéns pelo trabalho! Adorei a idéia do Dr. Halls, remetendo ao mal-humoradinho Dr. House da série. Fiz esse tipo de trabalho duas vezes, apaixonei e pretendo continuar também!

mariana ♪ disse...

Nossa que legal *-* Amei a iniciativa! Trazer alegria para aqueles que parecem não saber mais sorrir é uma grande coisa. Acho super bonito.

ps: adorei "Dr. Halls" o House da vida real haha

Atrás da porta... disse...

Gui, seu texto é maravilhoso! Quando adolescente fiz muito desse tipo de trabalho, principalmente, em hospitais que tratavam de crianças com câncer. Por mais fria, sarcástica e insensível que uma pessoa possa ser, ninguém passa por uma experiência dessa impune. Super parabéns pelo trabalho, Dr. Halls! Que seus pacientes sejam cada dia mais felizes. =) Bjs, Lu (Lacerda)

Máh disse...

Hey Dr. Hall, adorei o artigo retratanto exatamente o que acontece no querido Pronto sorriso...sempre vale a pena levar um pouquinho de alento àqueles já amargurados, pela vida e ainda mais pelo estado de saúde, pacientes do hospital universitario...
e concordo plenamente que agradar aos mais velhos é mil vezes mais facil que driblar as criancinhas e suas mães já cansadas de tanto trabalho!

PS: aquele bigode não me engana...antes de Dr. Halls vc era do Viljage People né?!

beijo,
Marcela

Naisa Nayane disse...

Que liiiindo :')
Eu já vi muito essas coisas pela televisão, e apesar de odiar hospital, eu quero poder passar por isso, pelo menos um vez ! Deve ser um emoção que só quem faz sente.

Parabéns pelo trabalho Tio Toscano, ou Dr. Halls, como preferir :D

Juliana Ferreira disse...

adoreeei as fotos dr.halls! acho bem bancana, deve ser emocionante fazer isso!

Anônimo disse...

Gostaria de começar fazer isso no hospital da minha cidade, mas não sei nem por onde começar, se alguém puder me ajudar

wagnerluis.c@hotmail.com

Giedre disse...

Oi Guilhherme! Muito interessante seu artigo. Faço esse trabalho naqui em Valença-RJ com a turma do teatro da minha cidade. Então, também sou professora de Arte e tenho uma turma que leciono Teatro. Estou te contando tudo isso porque gostaria de ter algum materail do seu curso. Acredito que ajudaria muito a todos nós com o trabalho que fazemos no nosso hospital. Agradecida! giedrealves@gmail.com

Cris Turco- arte educador disse...

Bela iniciativa dos professores..mas ainda é mto pouco,considerando q fora uma visita "obrigatória". Hj td é modismo,visitar doentes e postar nas redes sociais!
Um "lixeiro"corre atrás do seu "Pão" caminhão de lixo o dia inteiro,e sinceramente n vejo n comissão interessada sobre o asunto..
Parabéns!!!
A vc,seus coleguinhas,Gugu,Luciano merda,Fastão,Xuxa.......

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